Internacional

Uma outra maneira de conceber a internacionalização das universidades

Trecho do discurso do reitor da UQAM SR. Robert Proulx, Ph.D., por ocasião de uma conferência do Conselho de relações internacionais de Montreal, realizado em 3 de abril de 2013 : “Uma outra maneira de conceber a internacionalização das universidades”

Na minha apresentação, eu desejo primeiramente responder a uma questão: por que falar de uma internacionalização das universidades “de outra maneira”?

Em seguida, eu gostaria de ilustrar, me apoiando em alguns exemplos da UQAM, o que representa concretamente esta perspectiva.

Ao final, eu tratarei das questões levantadas por essa concepção num momento em que o Quebec discute o futuro de suas universidades.

Por que falar de uma internacionalização das universidades “de outra maneira”?

Porque o discurso atual sobre a internacionalização das universidades comporta algumas ambiguidades que levantam questões sobre o papel das universidades na sociedade.

Tomemos como exemplo o recente comunicado do governo federal:

Elementos em destaque:

  • Menciona um número recorde de mais de 100 000 estudantes estrangeiros em 2012 no Canadá.
  • Ressalta que esses estudantes injetam mais de 8 bilhões de dólares na economia canadense (valor superior às exportações de alumínio, helicópteros, aviões e espaçonaves).
  • Sugere que eles representam uma importante fonte em potencial de trabalhadores qualificados.
  • Argumenta que as universidades deveriam concentrar seus esforços de recrutamento em determinadas áreas científicas e em determinados países considerados prioritários, com o objetivo de aumentar o número de estudantes estrangeiros.

Obviamente, todos concordam que a abertura para o mundo – particularmente em relação aos chamados países emergentes – oferece novas oportunidades de desenvolvimento que devem ser exploradas. No entanto, devemos questionar o papel das universidades nesse processo.

Em outras palavras:

As universidades deveriam adaptar suas atividades e competir entre si de modo a satisfazer as novas exigências da globalização econômica e, dessa maneira, fazer aumentar seu nível de financiamento?

ou

Deveriam trabalhar em cooperação (entre si e com a sua comunidade) para criar uma rede robusta, baseada na complementaridade, e capaz de “tornar acessível o saber do mundo para o Quebec inteiro”, enquanto “torna acessível o saber do Quebec para todo o mundo”?

A acessibilidade não é um conceito passivo nesse caso. Trabalhando em cooperação, os parceiros aprimoram-se mutuamente. Na verdade, se nós trocarmos as palavras “mundo” e “Quebec” por “o Quebec e suas regiões”, nós encontraremos exatamente a missão da Universidade do Quebec em suas origens e, particularmente, a missão da UQAM.

A definição de internacionalização das universidades com a qual todos concordam é: “a inserção de elementos internacionais em suas atividades de ensino, de pesquisa e de serviços às coletividades”.

Essa definição nos leva a três constatações:

  • Primeiramente, que a internacionalização é uma ferramenta (e não um fim em si mesmo) que permite às universidades melhor alcançarem sua missão, pelo crescimento da qualidade das atividades nos três elementos que a definem.

De fato, a diversidade cultural, a interdependência das nações e as possibilidades oferecidas pelo desenvolvimento das comunicações tornam impensáveis que o alto nível da qualidade de pesquisa e formação seja alcançado sem a mobilidade estudantil, sem as trocas professorais e sem os programas conjuntos de ensino e pesquisa, que constituem as dimensões essenciais da internacionalização das universidades.

  • Em segundo lugar, se ela é uma ferramenta, o processo de internacionalização deve ser subordinado aos planos de desenvolvimento das universidades e não o contrário. Dessa maneira, elas podem se associar aos parceiros internacionais, baseando-se em valores compartilhados que lhes são próprios e, assim, conservar sua identidade.
  • Finalmente, em termos estratégicos, isso significa que o sucesso repousa sobre dois ingredientes essenciais:
  • Os projetos devem surgir da base (por exemplo, de professores com seus estudantes).
  • A estratégia global deve resultar de uma integração em grande escala do conjunto de projetos.

Essa constatação não é nova. De fato, desde sua criação há vários séculos, a universidade repousa sobre a livre circulação das ideias em uma comunidade acadêmica e sua transferência através do processo de formação associado aos debates que nela são realizados.

Evidentemente, a universidade moderna teve que responder aos desafios da massificação da educação e questionar sua “torre de marfim”. Ela precisou também desenvolver maneiras que a permitiriam se inserir no meio social às escalas local e nacional.

Nessa universidade que nós herdamos, aberta a novas formas de responsabilidade social, a internacionalização tornou-se a melhor maneira de enriquecer as ideias, as pessoas e as sociedades favorecendo a mobilidade, o teste dos conhecimentos e seus modelos de formação sob a luz das realidades internacionais. É isso que eu chamo de uma outra maneira de conceber a internacionalização da universidade. 

Para ilustrar essa lógica que quero evidenciar, eu gostaria de contar uma breve história sobre três balões vermelhos.

Em 2009, para celebrar os 40 anos da internet, a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) lançou um concurso.

Dez balões meteorológicos vermelhos foram espalhados no conjunto do território americano. Os participantes do concurso deveriam localizar esses balões e transmitir o resultado à DARPA. Os organizadores estimavam que fossem necessários um ou dois dias para que os participantes localizassem todos os balões utilizando o potencial da internet de criar redes sociais. Em menos de nove horas (8 horas e 52 minutos, precisamente), o MIT Media Lab havia corretamente localizado todos os balões.

Havia, portanto, a mesma tecnologia disponível para todos os participantes. A diferença estava no método da equipe do Media Lab, que consistia em suscitar a colaboração em detrimento da concorrência. A recompensa foi repartida entre as pessoas que visualizaram os balões, e também entre aqueles que os ajudaram. Além disso, o montante da recompensa não foi destinado a essas pessoas, mas a organismos sociais e de caridade locais. O Media Lab pretendia, assim, mostrar que utilizando iniciativas socialmente positivas, é possível mobilizar um grande número de pessoas para colaborarem com soluções dos problemas humanos.

A American Association of State Colleges and Universities (AASCU) reconheceu nessa experiência uma metáfora para ilustrar os méritos da colaboração, mas também a concebeu como a ilustração perfeita da maneira que a criação e a difusão do conhecimento repousam sobre o desenvolvimento de redes.

Nesse espírito, a AASCU criou uma rede que repousa sobre a colaboração entre instituições de ensino pela utilização de tecnologias a fim de aumentar a acessibilidade, encorajar o engajamento dos estudantes, enriquecer sua formação e repensar a maneira tradicional de abordar a aprendizagem, o ensino e o desenvolvimento dos programas.  

A UQAM é uma universidade que sempre optou pela colaboração, tanto para o desenvolvimento de seus programas, quanto da pesquisa, dos serviços às coletividades e da sua governança. Ela sempre abordou o plano internacional de maneira diferenciada.

Vocês puderam observar no curto vídeo introdutório, trechos de entrevistas com os responsáveis de alguns projetos, tais como:

  • A Cátedra de Pesquisa do Canadá sobre os Conflitos Sócio-territoriais e Governança Local, da qual a titular é a Sra. Catherine Trudelle, professora do Departamento de Geografia.
  • O Centro de Pesquisa em Educação e Formação relativas ao Meio-ambiente e à Ecocidadania, dirigido pela Sra. Lucie Sauvé, professora do Departamento de Didática;
  • E o Centro Interdisciplinar de Pesquisa em Desenvolvimento Internacional e Sociedade, dirigido pela Sra. Bonnie Campbell, professora do Departamento de Ciências Políticas.

Nós podemos dar outros exemplos de unidades e projetos de colaboração em pequena e grande escala que funcionam como microcosmos da universidade abordando a internacionalização de forma diferenciada.

  • O Centro de Pesquisa Interdisciplinar sobre a Biologia, a Saúde, a Sociedade e o Meio-ambiente (CINBIOSE) compartilha uma experiência internacional no campo da ergonomia, principalmente com o Chile, criando novos programas e apoiando pesquisadores e estudantes.
  • A Clínica Internacional de Defesa dos Direitos Humanos trabalha com a proteção dos direitos humanos em quatro continentes. Suas atividades, integradas ao programa de Direito, são realizadas por equipes de estudantes sob a supervisão de professores-advogados, em colaboração com diversas organizações não governamentais.
  • A Cátedra de Software Livre reúne parceiros quebequenses e franceses atuantes na economia social e solidária com a finalidade de, sobretudo, possibilitar que diversos organismos gerem seus ativos através de sistemas adaptados às suas necessidades, combatendo sua dependência de softwares integrados e caros.
  • O Doutorado em Museologia, Mediação, Patrimônio – Perfil internacional, oferecido de forma conjunta entre a UQAM e a Universidade de Avignon e Pays de Vaucluse (UAPV), permite aos estudantes cursarem em francês uma formação inteiramente integrada, conduzindo-os a uma dupla diplomação.
  • O Doutorado em Filosofia é o resultado de uma cooperação entre pesquisadores e equipes de pesquisa da UQAM, da Universidade do Quebec em Trois-Rivières (UQTR) e da Universidade Aix-Marseille I.
  • A Parceria UQAM e Paris-Dauphine em Gestão prevê um acordo de mobilidade que permite aos estudantes cursarem um ano letivo na instituição parceira, com vistas a completar um bacharelado ou uma licenciatura e obter um diploma duplo.
  • O Centro de Pesquisa em Geoquímica e Geodinâmica (GÉOTOP) foi constituído em parceria com a Universidade de Bremen da Alemanha, um consórcio que reúne diversas universidades canadenses, a fim de desenvolver uma formação sobre os impactos das mudanças climáticas.
  • O Centro de Estudo da Floresta, que reúne 57 pesquisadores de 11 universidades quebequenses, é o único centro que tem como missão principal a formação avançada sobre a pesquisa florestal.

E agora, passemos a exemplos de projetos que abrangem a temática internacional.

  • Quem não conhece a Cátedra Raoul-Dandurand em Estudos Estratégicos e Diplomáticos? Essa cátedra, que reúne universidades, órgãos públicos, organizações internacionais e organismos do setor privado, permite uma evolução da pesquisa sobre questões estratégicas e diplomáticas, além de servir como ponto de encontro entre o mundo universitário e o grande público.
  • Além disso, o Centro de Estudo e de Pesquisa sobre o Brasil é um polo multidisciplinar e interuniversitário de pesquisa, de formação e de difusão especializado no Brasil. Ele agrupa pesquisadores e uma dezena de departamentos da UQAM e de outras quatro universidades quebequenses.
  • O Instituto de Estudos Internacionais de Montreal, que reúne 13 centros, cátedras e grupos de pesquisa de vocação internacional, tem como objetivo apoiar a internacionalização do conjunto de atividades de seus membros e parceiros. Graças à multiplicação das trocas entre equipes de pesquisa e entre pesquisadores, ele favorece a transnacionalização das práticas de pesquisa, de formação e de mobilização do conhecimento.

E finalmente, um projeto baseado na solidariedade humana:

O Consórcio Interuniversitário pela Refundação do Sistema Educacional Haitiano é formado por 18 universidades quebequenses, canadenses e haitianas que trabalham em conjunto pelo desenvolvimento do sistema educacional do Haiti após o terremoto de 2010. 

Todos esses projetos baseiam-se na cooperação, emanam da base e comportam redes imbricadas cada vez maiores.

Concluindo, alguns elementos a favor de uma política das universidades.

Uma rede de cooperação robusta é vantajosa para todos os atores sociais, que se beneficiam da presença e da atividade universitária, sejam eles o poder público, as empresas ou as organizações comunitárias.

A visão proposta aqui é de uma rede universitária quebequense que funcione de modo colaborativo, que acreditamos ser a melhor maneira de tomarmos o trem do século XXI e de se situar em uma globalização democrática e inovadora.

O que nós precisamos no Quebec é de uma política que apoie claramente a dinâmica educacional e científica interna das universidades. Não uma política baseada em fatores externos e muitas vezes fugazes definidos como um “mercado” para a universidade. Uma política quebequense que reforce nossa rede universitária a fim de irradiá-la internacionalmente e que acolha o internacional aqui de forma a se beneficiar da força coletiva das instituições parceiras.

Como os projetos de pesquisa e de formação se desenvolvem inicialmente pela colaboração entre pesquisadores, é necessário criar políticas que apoiem as instituições no desenvolvimento coordenado de suas forças.

De fato, a história mostra que as ações mais inovadoras e mais inventivas jamais seriam alcançadas se professores, estudantes e cidadãos não questionassem como resolver juntos um determinado problema relacionado à criação, à aplicação ou à difusão do saber. O mesmo se aplica às instituições, que quanto melhor apoiarem seus membros, mais facilmente conseguirão associá-los em redes de cooperação.

Apoiar a cooperação representa sempre certo risco, pois é necessário que o funcionamento seja feito em rede e que haja confiança entre os colaboradores. No entanto, sempre onde há riscos existem também oportunidades. Mas quando trabalhamos em cooperação, os riscos são compartilhados e as oportunidades multiplicam-se.

No momento em que o Quebec se interroga sobre o futuro das suas universidades e sobre seu modo de financiamento, eu convido todos a trabalharem juntos para criar uma contundente rede quebequense pela valorização da cooperação no plano das políticas e dos recursos financeiros.

Para mais informações (em francês)